06/11/2008

Monstro das escolhas

Um dos trabalhos da faculdade nos permitia criar um roteiro com tema livre e montar um monstro (um demonstrativo do que seria o filme, um pouco mais que um storyboard). Como muitas das coisas que faço, o meu tinha o mundo infantil envolvido. Fiz com um cara muito massa, Marcelo Julião! A menininha se chama Ana, e precisa escolher: Chupar a chupeta suja ou esperar alguém lavar. Parece bobo. Mas quantas coisas bobas viram monstros? As escolha às vezes são terríveis e agoniantes. Mas como precisamos fazê-las o tempo todo e sabemos que elas definem nossas vidas, acho que o melhor é pensar. Pensar muito. Até ter paz para decidir. Beijos. Assista um pedacito inicial do roteiro:

Um comentário:

Elisa* disse...

Para quem achou legal, abaixo texto de argumentação feito antes do roteiro:

O curta-metragem abordará como tema as escolhas. Sejam elas simples, corriqueiras. Ou escolhas importantes, de vida. Podem ter poucas opções, ou muitas, isto não está relacionado com a gravidade da escolha. Para representar o tema o personagem será um bebê. Com apenas um ano, Ana fala quase nada, mas pensa, e muito. Seu mundo será representado a partir de sua visão, e do que já escutou em seu pouco tempo de vida. Seus pais são os outros personagens, que aparecerão do quadril pra baixo, estes também estarão em um simples processo de escolha.

Ana possui cabelo castanho claro, quase nada, liso. Já anda e ama sua chupeta. Usa vestido vermelho, pés descalços (porque tirou), olhos escuros, redondos e expressivos. É como qualquer outro bebê, mas será mostrada possuindo pensamento reflexivo e questionador. Fala apenas: Mama, dá, Pá, e Tatá (sua chupeta), além de fazer gesto de não com o dedinho. Pensa sobre seu futuro, opiniões não formadas, conceitos, e difíceis decisões. Para viver brinca, pensa, e chora.
Mora com os pais num apartamento, no curta só aparecerá a sala. Um cenário de fortes contrastes, predominando paredes e decoração brancas, móveis escuros e brinquedos de cores primárias. Ana ficará no sofá e em um grande tapete branco, com (bem!) possíveis ácaros. As cores serão importantes na representação das dicotomias (preto x branco), e nas principais opções que observamos na hora de escolher (cores primárias).

Seu pai usa jeans e tênis, pouco fala, se chama Ana por filha, não pelo nome. A mãe usa sandália baixa e um vestido azul (cor complementar ao vestido de Ana), chama a filha, Nana. Os pais andam pela sala, se cruzam, falam do que farão no fim de semana, almoço com família ou churrasco do trabalho. Falam de um problema, Ana vai ou não para escolinha. Nada dramático, representam a parte do que se esquece na vida. Decisões diárias que com o tempo podem passar despercebidas, mas que acabam influenciando de alguma forma.

As cenas serão filmadas de acordo com o que Ana avista, de baixo pra cima. Ou estarão focando a personagem. Ela e seu pequeno mundo se mostrarão mais interessantes que: um simples ser que dorme, mama, arrota, se suja e dá muito trabalho.

O principal conflito é de força-intrínseca. Ana pára de brincar, olha os pais passarem na sala, sua chupeta cai. O que fazer? Ela sabe que a chupeta no tapete ficou suja, e colocá-la na boca não pode. Ela pensa: corre o risco de se encher de bichos para logo voltar ao prazer da falsa mamada, ou espera alguém aparecer, lavar e só depois ter de novo a chupeta. Isto marca o início de outras profundas reflexões. Ela quer ser quem? Ter ou não uma religião? Casar ou não? Que tipo de música vai preferir? Ou que melhor amigo elegerá? Que profissão exercer? Se é preciso trabalho pra viver. Se quer realmente crescer.

Serão pensamentos que virão aleatoriamente, que fazem conexões talvez absurdas. De forma indireta sua simples escolha do que fazer com a chupeta servirá de metáfora para as sérias escolhas de Ana. Ela pede ajuda ao pai, faz uma tentativa de fazer o que aparentemente é certo, ele não entende. A mãe quando se liga para o que está ocorrendo percebe que é tarde. Ana decide pela chupeta suja, arrisca. Sabe que a conseqüência poder ser dores, remédios, ou talvez fortes anticorpos. Vive, ninguém pode fazer por ela, ou aprender por ela. A mãe se incomoda, mas depois sai, ignora o que a pouco a perturbou. Decide que a filha irá pra escolinha. A chupeta nunca teve um sabor tão bom. Hesitar teria sido prudente, mas sua vida não acabaria com a outra escolha, ela cresceria. Ela decide aprender, crescer. Tira a chupeta; começa uma nova fase em sua vida.

É um vídeo com apresentação, confrontação e resolução bem definidos, o conflito se divides nos respectivos atos. Apesar das questões levantadas poderem gerar uma empatia da platéia, ao se identificarem como pessoas que precisam definir quem são. Ou talvez uma antipatia, gerando uma reação quanto à chupeta suja. O objetivo é provocar um distanciamento emocional com a trama, o importante é que se questione a qualidade do modo de se escolher.